Palavras e silêncio ao espelho

Marcelo Spalding

Certa feita a escritora Cíntia Moscovich afirmou que Porto Alegre é a “cidade das oficinas literárias”. E talvez por isso, completo eu, seja a “cidade dos escritores”. Escritores assim, no plural, desconhecidos muitas vezes, profissionais de outras áreas, distantes da grande mídia, jamais vencedores de algum prêmio, pessoas “comuns” que mesmo estando “à margem” do meio literário produzem suas ficções e, eis o motivo de Porto Alegre ser a cidade dos escritores, boas ficções.

Exemplos há muitos, e muitos deles estão aqui no nosso site, como o Leonardo Brasiliense, que até vencer o Jabuti era um autor de belo trabalho e pouquíssimo reconhecimento. Outro é o que apresento agora ao leitor: Jacira Fagundes. Jacira, segundo a própria, “é de um tempo em que mulheres cumpriam a tradição: formavam-se professoras, depois esposas e depois mães”. Publicou seu primeiro livro em 2005, o infanto-juvenil “Um desafio para Manuel”, e ano passado lançou pela Movimento a novela “Dois no Espelho”, saudada na orelha por Valesca de Assis.

“Dois no Espelho” narra a história de dois irmãos marcados pelo destino: ela, herdeira de uma doença hereditária; ele, aleijado depois de cair do balanço quando bebê. Por causa da irmã. Em torno dos dois, ou entre eles, uma mãe viúva e reticente, que acompanha com certo distanciamento as implicâncias que virariam mágoas e acusações profundas entre os irmãos.

Os nomes, Mariana e Anairam, revelam que ambos são o verso e o reverso, o claro e o escuro, motivo pelo qual amam-se e odeiam-se. Tal qual num antigo LP, a autora aproveita-se dessa dualidade para dividir o livro em duas partes, a primeira narrada pelo menino, em que conta os motivos que o levaram a construir um dossiê sobre a doença que a irmã finge não existir, e a segunda narrada pela menina, já moça, em que revela toda a angústia por tentar viver normalmente apesar da forma física, apesar do destino traçado.

O discurso dos irmãos é marcado por silêncios, em que o mais importante não é o revelado, e sim o que está nas as entrelinhas, nas mágoas não ditas, nos amores não revelados, naquilo que o espelho não consegue refletir. Tal semelhança no feitio das duas partes causa algum estranhamento, é verdade, pois a narração não muda de tom na troca de um irmão para o outro, mas consegue recuperar os conflitos que num primeiro momento parecem difusos e dar um fechamento para a novela. Além disso, é fundamental que a narração seja em primeira pessoa porque ambos constituem-se naquilo que Ricouer chamou de “narrador inconfiável”: temos apenas suas versões ressentidas dos fatos, não a verdade em si, até por ser essa “verdade” inexistente no plano das relações familiares.

E é dessa relação entre a impossibilidade de compreensão plena da vivência das personagens e a necessidade do texto literário constituir-se por zonas indeterminadas que “Dois no Espelho” se vale, permitindo a cada irmão ver a si e ao outro nessa novela perturbadora.

 

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"Eu realmente gostei bastante da conversa naquele dia e da sua apresentação. Você não só sabe se expressar muito bem como tem um dom natural para o humor, não sei se alguém já te falou isso. Ainda assim, o mais legal de tudo é o seu trabalho. Não é o que eu estou acostumada a ver. É todo o ano a mesma coisa: livro de mistério, livro de romance e blá blá blá. Já, com você, foi diferente. O que faz a diferença é o que estás trazendo e como realiza isso: é simplesmente incrível. Você conseguiu abrir a mente de muitas pessoas naquele dia, e quero que continue assim. Com certeza eu gastarei os meus R$30,00 do nosso vale-livro com uma de suas obras."

Yasmin Ruppenthal
13 anos

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