Reaprender a olhar OU a praga dos celulares em shows

Marcelo Spalding

A queixa não é nova, já interrompeu shows de bandas famosas, já provocou debates acalorados e certamente cada um de nós já foi a mala que assiste a um show pela tela de um celular. E isso não é problema, claro, a não ser pelo fato de que atrás de você há centenas de pessoas que não querem ser distraídas pela luz do seu aparelho – isso quando o vivente não estica bem o braço para pegar o melhor ângulo (dane-se quem está atrás) ou liga o flash e ainda mira em você.

Não fazemos esses registros para vê-los no futuro, não mesmo. Sabemos que as imagens ficam uma porcaria, muito distantes, que a captação do som é ruim e que a magia do que Benjamin, em A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, chama de “aura”, o “aqui e agora”, simplesmente se perde – isso quando não trocamos de celular ou perdemos o cartão de memória e esses arquivos sequer ficam armazenados em algum lugar.

Fazemos esses registros para apreender o momento, para tentar enganar a fugacidade do tempo, para não esquecer. Por séculos apenas a escrita permitia registros que engassem o tempo e o espaço, mas hoje as imagens também são registros que permanecem além do nosso tempo e do nosso espaço (sintomático, aliás, que hoje autógrafo esteja fora de moda, o que o pessoal pede é selfie). Fotografar o lindo cenário à sua frente ou filmar a voz marcante do tenor é uma tentativa de mantê-los dentro de nós, manter esses bons e lúdicos momentos conosco.

Porém, a não ser que você seja muito organizado e tenha todas essas fotos e vídeos catalogados e com backups, e ainda uma predisposição nostálgica para voltar a esses arquivos vez ou outra – como faço com as fotos e vídeos de meus filhos pequenos –, de nada terá adiantado perder a melhor parte do show tentando ajustar a máquina ou procurando o melhor ângulo. Pior: quando você ver de novo seu vídeo, ficará com a sensação de que lá era muito melhor, mais intenso. E era mesmo.

Por outro lado, todas essas experiências artísticas, essas pequenas catarses a que nos submetemos, ficam marcadas em nós de forma definitiva. Nem sempre consciente, mas ficarão lá e moldarão quem você é, no que você acredita. Não por acaso pedagogos sugerem que se leve as crianças a shows e teatros desde pequenas, não por acaso choramos a morte do artista de uma peça que amamos ou mesmo nos pegamos lembrando de cenas, falas ou personagens soltas de espetáculos que assistimos.

Deixemos o celular desligado por alguns instantes, reaprendamos a olhar e viver a aura do espetáculo, pois essa é a forma mais humana – e talvez a única – de nunca o esquecermos.

 

Comentários:

Oportuno comentário; além de correto, excelente.Abraço
Ecilda Simões Symanski (Ecylda), Porto Alegre - RS 26/02/2017 - 11:26

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"Eu realmente gostei bastante da conversa naquele dia e da sua apresentação. Você não só sabe se expressar muito bem como tem um dom natural para o humor, não sei se alguém já te falou isso. Ainda assim, o mais legal de tudo é o seu trabalho. Não é o que eu estou acostumada a ver. É todo o ano a mesma coisa: livro de mistério, livro de romance e blá blá blá. Já, com você, foi diferente. O que faz a diferença é o que estás trazendo e como realiza isso: é simplesmente incrível. Você conseguiu abrir a mente de muitas pessoas naquele dia, e quero que continue assim. Com certeza eu gastarei os meus R$30,00 do nosso vale-livro com uma de suas obras."

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