Expansão ou expanção: por que um erro de ortografia cometido por um grande shopping é, sim, preocupante e grave

Marcelo Spalding

Véspera do Natal e eu estou almoçando com meu filho na praça de alimentação do maior shopping de Porto Alegre. Eis que olho para frente e me deparo com um enorme letreiro, em letras garrafais e com cara de que está ali há algum tempo, escrito: “Expanção da praça de alimentação”. Assim mesmo, com Ç.

Como professor de língua portuguesa e redação, leio muitos e muitos erros bem piores do que esse. Aliás, costumo dizer que erros de ortografia nem são tão graves, uma questão de confusão fonética, distração. Mas quando um shopping que fatura milhões comete um erro tão grosseiro, daqueles que até o Word ou o Google resolveriam, isso preocupa, sim.

Primeiramente, o fato de não haver um revisor ou alguém da equipe de comunicação que leia e aprove todos os comunicados já é um problema sério. Contrata-se engenheiros, seguranças, publicitários, mas revisor não precisa. Vá lá, hoje nem jornais os têm mesmo... Mas o que mais me incomoda e preocupa é que este pequeno erro é sintoma de um grave descaso com a língua portuguesa.

Quantos não olharam e pensaram, tá bem, é só uma letra, ou mesmo não perceberam o equívoco? Será que isso tem alguma relação com o fato de universidades não terem mais disciplinas de Língua Portuguesa? Na que eu trabalhei nem no Jornalismo e na Pedagogia mais eles têm Língua Portuguesa... Ou com o fato de as escolas enfiarem tantas disciplinas na grade curricular que Língua Portuguesa fica espremida com 3 ou 4 períodos por semana?

Porque estudar nossa língua não é saber que tal palavra se escreve com S ou Ç, estudar nossa língua é melhorar nossa capacidade de leitura, de raciocínio, de reflexão, é entender o texto e o subtexto, perceber a diferença que faz o verbo em um tempo verbal ou outro, a vírgula aqui ou ali. As palavras são armas em um mundo civilizado, as únicas armas com as quais podemos construir algo, lançar luz sobre temas que consideramos importantes, denunciar injustiças e até reivindicar direitos.

Desvalorizar nossa própria língua é desvalorizar nossa cultura, nossa tradição, nosso lugar no mundo. Aliás, o mais curioso (ou triste) é que nenhuma loja escreve “off” com um “f” só, nenhuma loja erra a ortografia da palavra “cookies”, “kids” e nem mesmo de “Christmas”.

Ah, no dia seguinte, depois do meu post no Facebook, dos compartilhamentos e centenas de curtidas, eles remendaram. O que não se remenda é o efeito desse descaso pela nossa própria língua, pela nossa própria cultura, geração a geração.


Remendo feito depois do meu post no Facebook

 

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"Eu realmente gostei bastante da conversa naquele dia e da sua apresentação. Você não só sabe se expressar muito bem como tem um dom natural para o humor, não sei se alguém já te falou isso. Ainda assim, o mais legal de tudo é o seu trabalho. Não é o que eu estou acostumada a ver. É todo o ano a mesma coisa: livro de mistério, livro de romance e blá blá blá. Já, com você, foi diferente. O que faz a diferença é o que estás trazendo e como realiza isso: é simplesmente incrível. Você conseguiu abrir a mente de muitas pessoas naquele dia, e quero que continue assim. Com certeza eu gastarei os meus R$30,00 do nosso vale-livro com uma de suas obras."

Yasmin Ruppenthal
13 anos

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