Contra a Cavalgada do Mar

Marcelo Spalding

Tive o desprazer de estar na beira da praia, em Capão da Canoa, quando passou a Cavalgada do Mar. Num primeiro momento, alguns aplaudiram, outros tiraram fotos, até que um dos cavalos investiu contra a multidão, na altura da guarida 79, em torno das 11 da manhã do dia 16 de fevereiro de 2012, para desespero do cavalheiro, que não conseguia freá-lo.

Como a praia estava cheia, muitos banhistas se assustaram e saíram correndo, algumas senhoras caíram, pais protegeram seus filhos. Para se ter uma ideia, o cavalo passou a dois passos de nosso bebê de um ano e meio, derrubando cadeiras e nos apavorando. Fomos reclamar com um dos dezenas de brigadianos que escoltavam a cavalgada, mas ele disse que tínhamos de reclamar com o comando. Um dos cavaleiros que por ali passava – de cerveja na mão, cavalgando só com a outra – começou a ironizar os banhistas reclamantes e disse: "o que meu cavalo gasta num mês vocês não ganham em um ano". Percebi o constrangimento do Robson, atendente do Kiosque Raio de Luz, que por ali passava.

O problema, entretanto, não é o poder aquisitivo dos cavaleiros, mas o risco que tal cavalgada representa para os banhistas. Quantos incidentes como esse não ocorrem ao longo do extenso trajeto? E caso houvesse feridos graves, quem levaria a culpa? Os organizadores, o cavaleiro, a BM ou o pobre cavalo, como no caso da criança assassinada por um pitbull aqui em Capão?

Não estou nem questionando o direito dos animais, sob sol forte durante 240 quilômetros, e sim o porquê da cavalgada ocorrer num horário de praia cheia, as vésperas do Carnaval. Se cachorros não podem circular na areia, por que centenas de cavalos podem? Talvez porque cavalos custem mais por mês do que nosso salário num ano inteiro. Talvez para satisfazer os caprichos de uns e outros ou promover entidades que a patrocinam. O fato é que essa é uma péssima representação dos ideais farroupilhas.

 

Comentários:

Concordo plenamente com teu ponto de vista.
Acho essa cavalgada uma grossura que nada acrescenta as nossas tradições.
Gilberto Braga, Porto%20Alegre 24/02/2014 - 16:22
Concordo contigo,Marcelo,estas cavalgadas não deveriam existir pelos motivos que explanaste.No entanto,esplalhados por todo o RS,há os gaúchos fanáticos que usam este tipo de façanha, porque querem mostrar a tradição.
Aqui,em Osório, há as cavalgadas das mulheres,pilchadas e são recebidas no final com um grande churrasco.Pode?
Suely Braga, OSÓRIO RS 29/02/2012 - 23:10
Esta "Cavalgada do Mar" é um dos signos arquetípicos desta casta de latifundiários e assemelhados que infestam o RS. Tem a vaga saudade de um tempo em que tinham o Poder, assim como os coronéis nordestinos. Além da possibilidade de acidentes com humanos e equinos, tem o desgaste impiedoso do animal e o rastro mal-cheiroso que estes cavaleiros deixam. Um arcaísmo, assim como a Farra do Boi e outras manifestações pré-modernas...
Ricardo Mainieri, Porto Alegre 29/02/2012 - 17:12
Como carioca desconheço estes costumes tradicionais do Sul mas, me parece que por trás de comportamentos deste tipo, estão os valores distorcidos de nossa sociedade que permitem em outras praias, meninos matando crianças que brincam nas areias ao "cavalgar" seus 'jetskies'sem controle e com a "proteção" das autoridades, seus pais. Creio que todos deviam esbravejar pedindo critérios que andam faltando diante da exibição da vaidade e do poder material.
Simples e direto Marcelo. Parabéns.
Angela Schnoor, Rio de Janeiro 29/02/2012 - 16:50

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"Eu realmente gostei bastante da conversa naquele dia e da sua apresentação. Você não só sabe se expressar muito bem como tem um dom natural para o humor, não sei se alguém já te falou isso. Ainda assim, o mais legal de tudo é o seu trabalho. Não é o que eu estou acostumada a ver. É todo o ano a mesma coisa: livro de mistério, livro de romance e blá blá blá. Já, com você, foi diferente. O que faz a diferença é o que estás trazendo e como realiza isso: é simplesmente incrível. Você conseguiu abrir a mente de muitas pessoas naquele dia, e quero que continue assim. Com certeza eu gastarei os meus R$30,00 do nosso vale-livro com uma de suas obras."

Yasmin Ruppenthal
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